Memória

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Antonio Candido (1918-2017)

 

Há exatos dez anos a revista Discurso publicava em seu número 37 um pequeno texto que seria a última contribuição de Antônio Cândido para a revista, fundada em 1970 por sua esposa, Gilda de Mello e Souza. Intitulado “A importância de não ser filósofo”, ele foi inserido pelo editor, Márcio Suzuki, logo na abertura desse número, e não poderia ter sido diferente. Não era essa, porém, a intenção do autor, que pedira a Franklin de Mattos, por intermédio de quem fizera o texto chegar à Discurso, que fosse publicado no final, dizendo algo assim, “vocês ainda têm aquela seção de notas, não é?”. Contando essa história na época, no café da faculdade, o mesmo Franklin de Mattos não conteve a exclamação: “Já pensaram? O maior intelectual brasileiro da segunda metade do século XX pede que a Discurso publique o seu texto numa seção de notas, no final da revista?” É claro que o maior da primeira metade foi Mário de Andrade; mas e quanto a Sérgio Buarque de Holanda? “É mesmo, havia esquecido! São três, então”. Neste 12 de maio de 2017, ainda sob o impacto da tristeza pela morte de Antônio Cândido, a quem este Departamento de Filosofia tanto deve, julgamos que seria uma maneira adequada de homenagear sua memória dar notícia, mais uma vez, desse pequeno e brilhante ensaio. 

 CANDIDO, Antonio. A importância de não ser filósofo 


Antonio Trajano Menezes Arruda (1941-2014)

No último dia 11/09, faleceu o Prof. Antonio Trajano Menezes Arruda, do Departamento de Filosofia da UNESP-Marília, aos 73 anos.

Trajano, como era conhecido, fez sua Graduação no Curso de Filosofia da USP, formando-se em 1969. Também neste Departamento obteve o título de Mestre (1978), sob a orientação de Oswaldo Porchat, e fez seu Doutoramento em Oxford (1985), com M. Ayers e J. Glover. Seus interesses de pesquisa giravam em torno de questões de Ética e Epistemologia.

Mas foi como docente que se destacou. Dedicou a maior parte de seus cursos à cuidadosa tarefa de introduzir os estudantes no exercício da leitura e escrita filosóficas, na compreensão da Filosofia como atividade de reflexão sobre problemas e temas que ultrapassem o simples comentário monográfico. Sem menosprezar a importância do ensino da História da Filosofia, foi um entusiasmado defensor da Filosofia como uma disposição pessoal que o estudante deve aprender a cultivar. Essa concepção filosófica da atividade docente, aliada ao respeito e apreço pelos estudantes, explica por que estes o admiravam, a ponto de organizarem dois “Simpósios Antonio Trajano Menezes Arruda”. Sua morte os surpreendeu em meio à organização do terceiro, que agora, certamente, se torna ainda mais significativo, como forma de prestar-lhe homenagem e a seus ideais.

Este Departamento se solidariza com seus familiares, colegas e alunos.

Balthazar Barbosa Filho

Bento Prado JuniorO Departamento de Filosofia comunica com extremo pesar o falecimento do Professor Balthazar Barbosa Filho, ocorrido no último sábado dia 18 de agosto de 2007. O professor Balthazar lecionou na USP de 1973-1974 e na UNICAMP de 1977-1986; desde 1987 era professor na UFRGS. Balthazar Barbosa Filho, nasceu em Porto Alegre, em 1942. Cursou a Faculdade de Direito na UFRGS (1961-1965). Logo passou à Filosofia e transferiu-se para a Bélgica, na Universidade Católica de Louvain-Ia-Neuve, onde fez graduação, mestrado e doutorado (1966-1972), sob a direção de Jean Ladriere. Ao voltar ao Brasil, lecionou na USP (1973-1977) e na Unicamp de (1977-1986). Desde 1987 é professor da UFRGS.

Ministrou cursos e palestras em diversas universidades nacionais e estrangeiras. Seus trabalhos cobrem a inteira área da filosofia, da Grécia antiga à lógica contemporânea; seu estilo é de rara precisão; seus argumentos, de impressionante clareza.

O natural filosófico, já dizia Platão, inaugura-se pelo amor ao saber e pela busca da verdade; não somente esta ou aquela verdade, mas a inteira verdade; não somente este ou aquele saber, mas o saber em sua totalidade.

Pretensão demasiada da filosofia? Talvez, mas não há filósofo a quem um domínio do saber não mereça atenção ou a quem repugne a verdade. É esta atitude clássica do filósofo que o professor Balthazar Barbosa Filho encarna tão exemplarmente no cenário filosófico nacional.

Texto extraído do livro “Lógica e Ontologia Ensaios em Homenagem a Balthazar Barbosa Filho”, São Paulo, Discurso Editorial, 2004.
 


Benedito Nunes

(Belém, 21 de novembro de 1929 - Belém, 27 de fevereiro de 2011)

Com a morte do Professor Benedito Nunes, perdemos um intelectual que cultivou, ao longo de toda a sua vida, a rara virtude de reunir rigor e sensibilidade, certamente porque nunca se encerrou nos limites de uma filosofia técnica, mas sempre se abriu para as manifestações da arte, principalmente da literatura, nas quais encontrava fontes de conhecimento mais amplas e profundas do que no racionalismo estrito. Assim, trabalhava em filosofia buscando sempre a inspiração poética do pensamento, e procurava na literatura o desvendamento das mais complexas questões existenciais. Não se tratava apenas de alguém que prezava igualmente a filosofia e a literatura, mas sim de um espírito do qual se pode dizer que foi, ao mesmo tempo, e de maneira profundamente harmoniosa, um pensador da arte e um artista do pensamento.

Em todos os seus trabalhos, ensaios filosóficos e crítica literária, promovia um diálogo com os autores e os temas no qual sobressaía a sua independência e a sua originalidade. As influências que nele podemos constatar não se reduzem à subordinação do discípulo ou à simples continuidade de outro pensamento, mas a erudição, vasta e variada, nele se transfigurava em finas percepções de tudo quanto as obras podiam revelar à sua refinada leitura e à sua atenção sensível.

A sua extensa obra ainda está por ser divulgada, pois os textos mais conhecidos representam apenas uma parte do enorme interesse que sempre manifestou pelo trabalho do espírito, sem a preocupação de sistematizar ou formalizar linhas objetivas de pesquisa ou impor a força da ordem à rica diversidade da sua meditação. Mestre generoso, formou gerações muito mais pelo que inspirava do que pelo que ensinava, uma vez que acreditava profundamente que a suprema liberdade consiste na criação, que ele procurou absorver na filosofia e na arte, com a acuidade e a compreensão sutil que exercia de modo privilegiado.

A modéstia e a discrição, qualidades nele dominantes, mantiveram-no a uma distância prudente das luzes do palco intelectual das celebridades acadêmicas e culturais, que sua severa alegria porventura ironizava. Ainda assim esperamos que seu exemplo frutifique, antes de tudo, como paradigma do pensador autêntico.

SP 28/02/2011
Por: Franklin Leopoldo e Silva
Departamento de Filosofia

 


Bento Prado Jr.

Bento Prado JuniorEm meados dos anos 60, Bento Prado Jr. era uma ilha de literatura cercada de filosofia por todos os lados. Pelo menos assim o viam seus mais próximos companheiros de geração. E para aumentar o desconcerto é preciso lembrar que fora aluno aplicado e convicto de alguns deles. Não é que lhe faltasse o indispensável apetite profissional pelos problemas técnicos; muito ao contrário, cumpria à risca os mandamentos do modesto porém eficiente figurino universitário francês que naquela mesma década acabara finalmente por se firmar, disciplinando a flutuante curiosidade filosófica local. E no entanto havia a pedra literária no caminho. Aí o paradoxo: como entender esta recaída (e logo veremos por que chamá-Ia assim) num ambiente onde não se costumava brincar em serviço? É verdade que consumir literatura, bem ou mal todos consumiam, mas como parte do equipamento cultural de todo homem civilizado, porém coisa à parte do mundo dos negócios filosóficos - e no caso de vida literária pessoal (podia acontecer), ela não deveria ter existência filosófica pública.

Ora, veremos que Bento armara um sistema particular de vasos comunicantes entre estes dois compartimentos. É bom insistir: não se poderia dizer que nosso Autor não tratava com a devida seriedade a causa da filosofia; até demais, pois depositava a mais irrestrita confiança na força reveladora da palavra filosófica. Só que era freqüente acrescentar­lhe um suplemento indefinido - um arabesco em torno do elemento essencial, como diria o Poeta -, atribuído pelos colegas a uma espécie de vezo estetizante congênito, com o qual não era de modo algum desagradável conviver, sobretudo nas horas de folga, mas que no final das contas seria melhor confinar. Tudo bem pesado entretanto, a dupla personalidade intelectual de Bento Prado Jr. era a cifra de um outro problema, para o qual acabou achando uma fórmula de compromisso em proveito daquele mesmo temperamento a um só tempo deslocado e muito à vontade no novo regime da filosofia universitária paulistana.

(...)

Isto posto, no que consistia afinal a simpática heresia de Bento Prado Jr. naqueles anos de ascese metodológica? Retrocesso, persistência da tradição? Nem de longe. Existir podia ainda existir, mas era quase uma reminiscência, a antiga e pacata altemância da rotina e da quimera, professor atualizado durante o expediente, poeta simbolista nas horas vagas. O caso agora era outro. Bento simplesmente começara a insinuar, sem no entanto se dar por achado, que, salvo nas regiões mal demarcadas em que confina com o conhecimento científico, a filosofia bem poderia ser um ramo recalcitrante da cultura letrada. Passado o período de acumulação e assepsia máximas, achava que já era hora da filosofia aprender a escrever, submetendo-se enfim ao teste decisivo: fazer-se entender e até mesmo apreciar por um leitor não especializado porém cultivado. Notando as encrencas expositivas em que nos metíamos, percebera que a filosofia era um gênero novo para o qual ainda não dispúnhamos de língua própria. Por mais que copiássemos as técnicas da dissertação e da explicação de texto difundidas pelos professores franceses, algo lhe dizia que não era menos necessário ajustar-se igualmente aos padrões literários da prosa de ensaio local. Dito isto, não creio estar exagerando se afirmar que a filosofia franco-uspiana começou de fato a escrever com Bento Prado Jr. e que simplesmente lhe devemos a invenção do ensaio filosófico paulistano. E isto numa quadra em que ainda estava bem vivo nos meios uspianos - da sociologia à filosofia - o sentimento da ruptura irreversível com a tirania literária do passado, nos termos em que se viu porém acrescidos da demasia contrária: em muitos círculos passava por prova suplementar de rigor científico a escrita deliberadamente estropiada. Um pouco para chatear, mas não só por isto, Bento resolveu adotar a causa perdida da perfumaria, como lembrou certa vez um veterano daqueles tempos de acumulação primitiva. Guiava-o uma espécie de tirocínio literário que certamente não adquirira em classe.

Por outro lado, esse mesmo golpe de vista escolado pela vida intelectual pregressa lhe sugeria que uma prosa bem armada não poderia deixar de orientá-Io no pensamento. A dificuldade estaria na escolha dos elementos que lhe servissem de modelo e que sobretudo lhe confirmassem a convicção ainda informe de que o momento expressivo é igualmente determinante numa exposição filosófica. Tudo bem pesado, e para resumir, o fato é que ninguém sabia ao certo, preto no branco e silenciada a voz suspeita da tradição, o que significava mesmo escrever no Brasil. Para um sartriano de nascença como Bento o amálgama se fez com naturalidade: não se poderia dar satisfação a esse embaraço congênito da escrita filosófica sem responder à pergunta igualmente especulativa pela essência da Literatura. Estava aberta a porteira por onde passaria a filosofia uspiana da literatura, com maiúscula e tudo. Neste passo não espanta que uma vez encerrada a tese de história da filosofia que devia a seus pares, os primeiros ensaios de Bento tratem abertamente de motivos literários. Ora, o mais surpreendente nesta abertura filosófico-literária, como veremos, é que nosso Autor não precisou renegar a magra dieta especulativa que lhe fora servida pela filosofia universitária francesa para introduzir no elenco dos assuntos nobres a meditação sobre a natureza da literatura. Mas a esta plataforma seria preciso juntar uma combinação igualmente imprevisível de preferências literárias reforçadas pelas transformações extra­curriculares da filosofia francesa.

Duas palavras sobre o epílogo desse roteiro. Muitos anos depois, à procura de algo que definisse o filósofo (por certo uspiano), Bento destacaria no modo de ser desajeitado do personagem uma certa "relação complicada com a linguagem". Mas então já esquecera aquele mal-estar de origem, substituindo-o por um teorema enunciado em benefício da corporação. Só os leigos olham inocentemente para as coisas, enquanto ao espírito filosófico caberia o inexplicável privilégio de uma percepção literal da linguagem, a contra-pelo da visão instrumental corrente. A ser assim, onde se poderia reconhecer o registro retrospectivo de um desconforto real e culturalmente significativo, Bento de fato nos oferecia um elogio da filosofia. Mais adiante, aproveitando a deixa, Rubens Rodrigues Torres Filho extrairia daquela fórmula que repartia a humanidade entre simples usuários da linguagem e os que lutam com as palavras da tribo, pelejando por lhes dar um sentido mais puro, um argumento a mais em favor da convicção de que a incerta fala filosófica uspiana (pelo menos uma variante dela, muito cifrada e oblíqua) poderia encontrar seu lugar natural no igualmente movediço "dizer literário": Como queríamos demonstrar? Ainda não. Nem se poderia dizer que tenha sido esta a meta perseguida por Bento Prado Jr. desde aquele começo tateante à procura de estilo e assunto. O que de fato se pode dizer é que foi o primeiro a recolher os elementos decisivos para a futura cristalização, no âmbito da cultura filosófica uspiana, de uma ideologia literária muito característica, da qual seria então peça chave a referida crença na co-naturalidade de filosofia e literatura.

Extraídas de Um departamento francês de ultramar (São Paulo: Paz e Terra, 1994, páginas 170-177), as palavras do Prof. Paulo Eduardo Arantes testemunham a homenagem deste Departamento à memória de Bento Prado Jr., Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

José Arthur Giannotti texto  Diferenças Genéticas 
Roberto Schwarz texto  Às voltas com Bento Prado

 

Carlos Nelson Coutinho

Lamentamos informar que morreu na manhã desta quinta-feira, dia 20 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro, o cientista político Carlos Nelson Coutinho, aos 70 anos.

Carlos Nelson Coutinho foi professor titular de Teoria Política na Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS–UFRJ). Conhecido no Brasil e no exterior como um dos maiores especialistas na obra de Antonio Gramsci, foi responsável pela edição brasileira dos Cadernos do cárcere (Civilização Brasileira, 1999-2002). É autor de vários livros, entre os quais: Gramsci. Um estudo sobre seu pensamento político (Civilização Brasileira, 3. ed., 2007), Contra a corrente: ensaios sobre democracia e socialismo (Cortez, 2. ed., 2008) e O estruturalismo e a miséria da razão (Expressão Popular, 2. ed., 2010).

Carlos Nelson Coutinho foi um de nossos principais intelectuais marxistas. Sempre articulando sua reflexão teórica com a prática militante, dedicou-se à crítica cultural nos anos 60 e 70, teve papel destacado na divulgação no Brasil das obras de Lukács e Gramsci e concentra sua atenção, desde os anos 70, na filosofia política. Seu clássico ensaio A Democracia como valor universal foi uma intervenção marcante no debate sobre a teoria política no Brasil. Atualmente edita as Obras de Antonio Gramsci, pela Civilização Brasileira, da qual já saíram seis dos dez volumes previstos. Entre seus livros mais recentes estão Marxismo e política e Contra a corrente, lançados pela Cortez Editora, e Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político, da Civilização Brasileira.

Por: Prof. Moacyr Novaes
Departamento de Filosofia


Claude Lévi-Strauss

Claude Lévi-StraussClaude Lévi-Strauss (1908-2009), que esteve no Brasil e lecionou Sociologia na então recém-fundada Universidade de São Paulo, foi um dos nomes mais importantes da etnologia contemporânea. Suas contribuições científicas e metodológicas renovaram os estudos no âmbito dessa disciplina, que teve seu perfil profundamente alterado depois das suas obras. Ficou conhecido pela aplicação de procedimentos estruturais, originários da Línguística de Saussure, ao estudo das culturas pré-civilizadas, proporcionando assim uma compreensão nova dos mitos e outros elementos dos povos ditos primitivos. “O Pensamento Selvagem”, “Antropologia Estrutural” e “Tristes Trópicos” estão entre suas obras mais divulgadas. Exerceu influência decisiva na formação de etnólogos brasileiros, com os quais continuou colaborando depois de sua volta à França.


Fausto Castilho

É com pesar que informamos do falecimento do Prof. Fausto Castilho, professor emérito da UNICAMP e filósofo que prestou grande contribuição aos debates filosóficos no Brasil. Registramos, em nome da comunidade filosófica brasileira, nosso agradecimento pelo trabalho do Prof. Fausto Castilho e nossa solidariedade com a família por sua perda.
ANPOF

 

http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2015/02/03/unicamp-perde-fausto-castilho


Gérard Lebrun

Gerard LebrunGérard Lebrun nasceu em Paris em 1930. Formado em filosofia na Sorbonne, foi convidado em 1960 a ocupar a cátedra de filosofia mantida pelo governo francês na Universidade de São Paulo. Mais tarde, já professor no Departamento de Filosofia da Universidade de Aix-em-Provence, retomou o vínculo com o Brasil em 1973, lecionando durante 6 anos na USP. A partir de 1980 alternou os semestres letivos entre Aix e São Paulo. Faleceu em Paris em 1999. Publicou entre outros livros, Kant e o fim da metafísica (1970), La Patience du concept (1972) e O avesso da dialética: Hegel à luz de Nietzsche (1988)

 

Gilles-Gaston Granger

O Departamento de Filosofia comunica que faleceu hoje, dia 24 de agosto de 2016, Gilles-Gaston Granger  que, desde 1949, quando pela primeira vez veio lecionar no Departamento de Filosofia da USP, foi um dos primeiros elos deste Departamento com a França. Voltou muitas vezes ao Brasil, e na França foi professor de lógica e epistemologia em Rennes, Aix-en-Provence, terminando sua carreira como professor do Colégio de França. Tem uma vasta obra, alguns livros e artigos publicados no Brasil.

 

Jean-Pierre Vernant

Vernant

O professor Jean-Pierre Vernant faleceu em 9 de janeiro de 2007, aos 93 anos.

Vernant foi responsável por uma modificação significativa em nossa compreensão das origens do pensamento grego, substituindo o mito do “milagre grego” pela análise concreta das condições históricas que deram nascimento à filosofia. Nascimento associado ao da Cidade grega, em particular da democracia, este regime em que, diz ele, o poder está “no centro”, eqüidistante de todos, de modo que, ao contrário de qualquer outra formação histórica, torna necessário o recurso à razão para fazer valer uma determinada posição. Do mesmo modo que a Cidade grega já não se subordina à autoridade do déspota, que dá ordens, sem necessidade de argumentar, o filósofo não se contenta com a autoridade tradicional e divina do mito. A compreensão das modificações históricas que propiciaram o surgimento da Cidade, por sua vez, exige a análise da especificidade grega, da radical novidade do regime de escravidão até, no limite, a consideração do tipo particular de produção de ferro. Um programa assumidamente “materialista”, chamado por Vernant de “psicologia histórica”, que soube se manter ao largo da vulgaridade e que se estende pela longa produção de dezenas de livros, muitas vezes regida pela análise do mito: “Mito e Pensamento”, “Mito e Trabalho”, “Mito e Sociedade”, “Mito e Tragédia” etc. Ou melhor, Entre mito e política, como no título de sua “auto-biografia” (publicada em 1996 e traduzida pela Edusp em 2001), na realidade, um extraordinário “memorial” de sua vida acadêmica e política.

Vernant, o historiador erudito, também foi, o “Coronel Berthier” da Resistência francesa ao nazismo e, depois da Guerra, militou no Partido Comunista até 1969. Sem nunca deixar de ser résistant. Ainda em 2002, forneceu ao editorial do jornal francês Le Monde o argumento definitivo contra a idéia de um debate entre os dois candidatos de então ao segundo turno das eleições presidenciais, Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen, o representante da extrema-direita: “minha porta e minha mesa, dizia ele, estão sempre abertas, estou pronto a experimentar todos os pratos, mesmos os mais estranhos. Mas não se discute receita de cozinha com antropófagos. Não pretendo nem participar de seu repasto nem convidá-los para a minha mesa...”.

Em 1971, o prof. Jean-Pierre Vernant ministrou um curso semestral no Departamento de Filosofia da FFLCH-USP. Uma experiência inestimável e inesquecível para os jovens estudantes que tiveram o privilégio de ouvi-lo. E de vê-lo, na sua impecável e discreta compostura professoral, mesmo sob calor insuportável dos “Barracões”.

Também aqui o rigor da formação não se desvinculava da ação política. No começo dos anos 70, depois que a Ditadura Militar cassou e exilou tantos dos nossos professores, o Depto. de Filosofia estava ameaçado de extinção porque “não tinha o número necessário de professores”... Para impedir que isto acontecesse, alguns professores de outros departamentos da Faculdade se transferiram para o de Filosofia. Foi quando Jean-Pierre Vernant e François Châtelet se prontificaram a lecionar aqui, dando a necessária visibilidade internacional à situação do Departamento. À constante influência intelectual, somou-se a presença solidária quando mais se fez necessária.

A morte de Jean-Pierre Vernant nos privou de um mestre e de um amigo da casa.

Prof. Dr. J. C. Estevão
Departamento de Filosofia


João Paulo Gomes Monteiro

É com profundo pesar que comunicamos o falecimento, em 17/04/2016, do Professor João Paulo Gomes Monteiro, docente aposentado deste Departamento.

Com Mestrado (1967), Doutorado (1973) e Livre-Docência (1975) no Departamento de Filosofia da USP, João Paulo nele atuou como docente por cerca de trinta anos, com extrema dedicação, aposentando-se em 1995. Exerceu papel importante como orientador de vários pesquisadores, mantendo-se nessa atividade, após aposentar-se, por mais dez anos. Ocupou cargos administrativos com seriedade e empenho.
Como pesquisador, dedicou-se a questões de epistemologia contemporânea e de filosofia política, mas seu principal objeto de estudo foi sempre o pensamento de David Hume, ao qual consagrou a maior parte de seus artigos e livros. Foi responsável por importante valorização dos estudos humeanos entre nós.
Foi sempre um debatedor de ideias, pronto a ouvir objeções e a respondê-las, propondo-se sempre ao diálogo franco a respeito de suas posições e das posições alheias, quaisquer que fossem. Deixou exemplo de honestidade intelectual aos que com ele conviveram, como estudantes, orientandos e colegas de Departamento.
Este Departamento se solidariza com seus familiares e registra sua tristeza com a perda de seu agora saudoso Professor.


Oswaldo Porchat

 

Faleceu neste domingo, dia do professor, Oswaldo Porchat, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, bem como da Universidade Estadual de Campinas. Foi um dos mais importantes filósofos brasileiros e teve papel fundamental na criação e consolidação de um sistema de vasos comunicantes entre os principais Departamentos e Cursos de Filosofia das Universidades do país, seja no período em que atuou no Departamento de Filosofia da USP, seja no período em que fundou e desenvolveu o Centro de Lógica e Epistemologia da Unicamp. Além de desenvolver uma filosofia própria, de orientação cética, Porchat, dotado de sólida formação clássica e humanista, se destacou sobremaneira como docente, tendo influenciado, com seus trabalhos publicados, conferências e cursos, grande número de pesquisadores de mais de uma geração. É um dos principais responsáveis pela existência hoje, na comunidade acadêmica de filosofia, de um padrão de rigor e excelência de pensamento, que soube transmitir a muitos que hoje atuam destacadamente nos Cursos de Filosofia de nossas Universidades. Sua filosofia cética, forjada segundo esses mesmos padrões, tem influenciado muitos pensadores brasileiros.

Prof. Dr. Roberto Bolzani Filho

 Manifestações da comunidade acadêmica


Valerio Rohden

É com grande pesar que comunicamos o falecimento, na manhã do dia 19 de setembro, de Valerio Rohden, um dos mais ativos e importantes pesquisadores de Kant no Brasil.

Valerio Rohden fez Graduação em Curso de Filosofia (1960) e Doutorado com Livre-Docência pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976). Fez pós-doutorado na Universidade de Münster, Alemanha (1988-9). Também desenvolveu pesquisas em Universidades de Roma, Paris, Freiburg i.Br., Heidelberg, Köln, Erlangen-Nürnberg. Foi professor visitante na UFRJ. Foi professor titular na Universidade Luterana do Brasil. Exerceu atividades como Pesquisador Visitante junto à Pontifícia Universidade Católica do Paraná. E, como professor voluntário, foi membro do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFSC.

Dentre inúmeros artigos sobre a filosofia de Kant, destacou-se especialmente pela tradução das três Críticas, dando assim uma contribuição inestimável aos estudos kantianos entre nós. Ressalte-se também seu importante livro, Interesse da Razão e Liberdade (Ática, 1981).

Valerio Rohden também foi presidente da Associação de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF) entre 1986 e 1988. Foi fundador e presidente da Sociedade Kant Brasileira (1994 -2006) período em que foi realizado no Brasil o X Congresso Kant Mundial, e, ao longo de sua carreira, não mediu esforços para fortalecer e divulgar os estudos kantianos brasileiros entre nós e no exterior. Atualmente, coordenava, juntamente com Daniel Perez, um seminário voltado para o estudo e a tradução das Lições sobre Antropologia de Kant, na Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Ricardo Ribeiro Terra
Prof. Titular Departamento de Filosofia da USP