I Encontro Deleuze e Guattari: desejo e política

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24, 25, 26 e 27/SET/2019
Cartaz e Programação do evento: 
Endereço: 
Conjunto Didático de Filosofia e Ciências Sociais, Av. Prof. Luciano Gualberto, 315 - Cidade Universitária, São Paulo - SP
Co/organização: 
ORG. GT DE ESQUIZOANÁLISE DO LATESFIP | COORDENAÇÃO: PROFA. DRA. SILVANA DE SOUZA RAMOS

 

Às nossas amigas, aos nossos amigos

 

Acontece de um psicanalista e um militante se encontrarem na mesma pessoa, e ao invés de permanecerem fechados, de encontrar justificativas para permanecerem fechados em si mesmos, eles não cessam de se misturar, de interferir, de comunicar, de tomar-se um pelo outro. É um acontecimento muito raro desde Reich. Pierre-Félix Guattari não se deixa ocupa com o problema da unidade do Eu. O eu faz parte dessas coisas que é preferível dissolver, sob o assalto conjugado de forças políticas e analíticas. A palavra de Guattari “nós somos todos grupelhos”, marca bem a busca por uma nova subjetividade, subjetividade de grupo que não se deixa enclausurar em um todo pronto para reconstruir um eu, ou pior ainda um super-eu, mas se estende por diversos grupos ao mesmo tempo, divisíveis, multiplicáveis, comunicantes e sempre revogáveis.                             

Gilles Deleuze, no prefácio de Psicanálise e Transversalidade.

 

Se Reich foi o primeiro militante marxista e psicanalista a buscar compreender a natureza do fascismo, Guattari não viveu apenas a ocupação nazista na França, mas também os anos de inverno do neoliberalismo. E foi justamente ao assistir à ascensão dessa nova forma política social que ele chamou de capitalismo mundial integrado, que ele criou o conceito de micro fascismo.

 

Se o fascismo se perpetuou por tantas décadas é porque ele penetrou profundamente em todas as esferas da vida social. Ele não é apenas uma forma de governo, o fascismo mora dentro de cada um de nós.

 

Em Revolução molecular, Guattari também afirmava que a separação entre lutas políticas e lutas de desejo abre espaço para todas as formas de recuperação. Vendo o avanço do neoliberalismo, Guattari afirmava que, com a expansão mundial do capitalismo e com o fracasso das fórmulas fascistas, stalinistas e socialdemocratas, o capitalismo seria levado a buscar outras formas de totalitarismo. Enquanto não encontra-las, ele se verá às voltas com movimentos para ele imprevisíveis (greves selvagens, movimentos de auto-gestão, luta de imigrantes, minorias radicais, subversão nas escolas, hospitais psiquiátricos, prisões, luta por liberdade sexual, etc.) Não se trata aqui da revolta de conjuntos sociais homogêneos, cuja ação pode ser canalizada a partir de objetivos econômicos, ela traz consigo, portanto, uma tendência para a proliferação também das formas de repressão, que justamente por essa razão se tornam mais exacerbadas. (Guattari, La révolution moléculaire, 1980, p. 74)

 

Para compreender o tipo de adesão que sustenta esses movimentos microfascistas, Guattari juntamente com Deleuze, viu a necessidade de renovar todo o aparato teórico da psicanálise, para pensar não apenas formas de diagnóstico, mas também uma outra clínica. Uma clínica que fosse capaz de pensar o social e o psíquico não como simples projeção, de inserir o desejo na infraestrutura e o pensar como motor da vida social, um motor no entanto, que precisa ser reprimido para que a vida social se organize. Assim, se Foucault se dedicou em sua microfísica do poder a pensar as diversas formas de repressão dentro da vida social, as diversas formas de exercício de poder na construção de nossa vida social (da loucura à prisão, passando pela sexualidade), Guattari com sua micropolítica procurava pensar a repressão do ponto de vista psíquico e o papel das forças sociais na repressão do desejo. Uma clínica que pensa o desejo não do ponto de vista do indivíduo e do Outro, mas de grupos. Ele também procurava desdobrar a experiência de auto-gestão na clínica La Borde para pensar formas de luta política fora dos partidos. Criou para isso, o conceito de transversalidade, para pensar outras formas de relação entre desejo e vida social, e outras formas de organização da luta política.

 

Uma dupla ruptura, com o marxismo e a psicanálise, que tornou possível a criação de um aparato teórico à altura dos problemas do presente. É para celebrar e continuar essa história que convidamos os interessados a participarem do debate conosco nos dias 24, 25, 26 e 27 de setembro no departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo.


Programação

DIA 24 - Sala 08

 
[ 19: 00 ]
Conferência de abertura

 Marilena Chauí
O desejo em Espinosa

 
DIA 25 - Sala 08
 
[ 16:00 ]
Mesa: Desejo e clínica


Felipe Shimabukuro (USP)
Uma hipótese sobre a descoberta dos objetos parciais

André Bezerra (USP)
Reflexões sobre temporalidade na clínica

Alessandra Martins Parente (USP)
Sublimação e dialética no Moisés de Freud: uma leitura deleuzo-guattariana

[ 18:00 ]
Mesa: Desejo e clínica

João Vitor dos Santos (USP)
Lógicas heterodoxas e máquinas desejantes

Felipe Ferreira (PUC-SP)
A questão da violência n'O anti-Édipo 
 
Felipe Fernandes (USP)
Clínica e ética na Esquizoanálise
 
DIA 26 - Sala 08
[ 16:00 ]
Mesa: Política
Heitor Pestana (USP)
Andar através das paredes: a reterritorialização da micropolítica

Benito Maeso (USP)
Medo, desejo, controle

Julio César Lemes de Castro (Latesfip)
Governança algorítmica e des/reterritorialização do controle

[ 18:00 ]
Mesa: Estética


Julia Pedigone (USP)
Relampejar entre miragens no Espelho: Guimarães Rosa e Deleuze e Guattari

Jean-Sebastien Laberge (Universidade de Otawa-Paris X)
Guattari, leitor de Proust

Paulo Jorge Leandro (UFPB)
Políticas do desejo na literatura-menor de Kafka

[ 20:00 ]
Peter Pál Pelbart (PUC-SP)
Ensaios do Assombro

 
DIA 27 - sala 14
 
[ 16:00 ]
Mesa: Desejo e política

 
Pedro Ambra (USP)
Anti-Édipos na psicanálise
 
Lívia Santiago (UNICAMP)
O mito do masoquismo feminino

Marília Pisani (UFABC)
O corpo como plataforma: uma autoetnografia do que pode o sexo e o gênero na educação, tecido pela aranha de Fernand Deligny e pelo ciborgue de Donna Haraway.

Lis Macêdo de Barros (USP)
Junky maquínico e texto junkie: corpo sem órgãos drogado e sua inversão toxicomaníaca-porno somática

[ 18:30 ]
Mesa: Poder e micro-política

 
Silvana Ramos (USP)
Deleuze, leitor de Foucault
 
Larissa Drigo Agostinho (USP)
Micropolítica em Guattari
 
Jean Tible (USP)
Marx indígena, preto, feminista, operário, camponês, cigano, palestino, trans, selvagem

[ 20:30 ] 
Suely Rolnik (PUC-SP):
Esferas da insurreição